O retorno do culto à magreza extrema e o que isso revela sobre nossa relação com o corpo
- Rogéria Taragano

- há 7 horas
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Recentemente, fui convidada a participar de uma reportagem do Estadão sobre o retorno do culto à magreza extrema. Esse tema não é novo para quem trabalha com saúde mental, mas tem ganhado novos contornos com a força das redes sociais, das tendências estéticas e das narrativas sobre o que seria um “corpo ideal”.
Na prática clínica, vejo cada vez mais pessoas tentando alcançar padrões que não apenas são difíceis, mas muitas vezes irreais. E é justamente nesse ponto que a conversa deixa de ser apenas sobre peso e passa a ser sobre identidade, autoestima e pertencimento.
Quando emagrecer deixa de ser só uma escolha estética
Nem toda busca por mudança corporal representa um risco. O alerta surge quando o emagrecimento começa a funcionar como um caminho para validação emocional. Muitas histórias de transtornos alimentares começam de maneira silenciosa: uma dieta aparentemente inocente, elogios recebidos, a sensação de reconhecimento social.
Com o tempo, o valor pessoal pode passar a ser medido pela aparência. A relação com o corpo se torna rígida, e o controle alimentar deixa de ser cuidado para se transformar em sofrimento.
A pressão estética e seus efeitos psicológicos
A valorização social da magreza extrema cria um cenário propício para o surgimento ou agravamento de transtornos alimentares. O que observo é que a autoestima, em alguns casos, fica completamente condicionada à imagem corporal, como se o reconhecimento pessoal dependesse exclusivamente do olhar externo.
Essa pressão não afeta apenas meninas adolescentes, como muitas vezes se imagina. Hoje vemos um aumento de casos também entre meninos e homens, além de pessoas em fases de grandes transformações corporais, como a adolescência e a menopausa.
Nesses momentos, o corpo muda rapidamente, e a magreza pode surgir como uma tentativa de retomar a sensação de controle diante de algo que parece instável.
O impacto das redes sociais na construção do ideal de corpo
Grande parte dos padrões estéticos que circulam online não existe fora das telas. Filtros, edição de imagem e recortes específicos criam referências inalcançáveis. Quando alguém passa a comparar sua realidade com essas imagens, pode surgir uma sensação constante de inadequação.
Perseguir um ideal irreal tende a gerar ansiedade, frustração e um estado permanente de autocrítica.
Um convite para ampliar o olhar sobre saúde
Quando falamos em saúde, é importante ir além da balança. A pergunta que costumo trazer para os pacientes é: independentemente do seu peso, “como você se sente dentro do seu corpo?”.
Saúde envolve autonomia, equilíbrio emocional e uma relação mais gentil consigo mesmo. Em um momento em que tendências corporais mudam rapidamente, fortalecer uma autoestima menos dependente da aparência pode ser um dos maiores fatores de proteção emocional.
Mais do que seguir padrões, talvez o verdadeiro cuidado esteja em construir uma relação possível e sustentável com o próprio corpo.
Quer saber mais?




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