"Aos 10 anos, ela contava calorias": quando a preocupação com o corpo chega cedo demais
- Rogéria Taragano

- 9 de jul.
- 2 min de leitura
"Aos 10 anos, ela contava calorias."
Foi essa frase, que dá título à reportagem do Estadão da qual participei recentemente, que mais me marcou. Porque ela resume uma realidade que, infelizmente, tem chegado cada vez mais cedo aos consultórios.
A matéria conta a história de Lara, que ainda na infância passou a controlar o que comia, sentir culpa ao se alimentar e desenvolver uma relação de sofrimento com o próprio corpo. Não se trata de um caso isolado. O que antes costumávamos observar mais frequentemente na adolescência tem aparecido em crianças cada vez mais novas.
As redes sociais não explicam, sozinhas, o desenvolvimento de um transtorno alimentar. Sabemos que essas condições são multifatoriais. Mas elas podem antecipar preocupações com peso, calorias, aparência e desempenho físico em uma fase em que a criança ainda está formando sua identidade e sua autoestima.
Na reportagem, conversamos sobre como o algoritmo pode intensificar esse processo. Basta uma curiosidade sobre alimentação, exercícios ou emagrecimento para que a criança passe a receber uma sequência de conteúdos semelhantes, criando a impressão de que controlar o corpo é algo esperado ou até necessário.
O que mais preocupa é que muitos desses comportamentos passam despercebidos. Contar calorias, evitar determinados alimentos, sentir culpa depois de comer ou fazer comentários frequentes sobre "engordar" podem parecer apenas uma fase. Mas, em alguns casos, são sinais de alerta que merecem atenção.
Mais do que vigiar o tempo de tela, precisamos estar presentes na vida digital das crianças. Saber quem elas seguem, quais mensagens recebem diariamente e, principalmente, criar um ambiente em que possam falar sobre suas inseguranças sem medo de julgamento.
A história da Lara nos lembra que transtornos alimentares não começam de um dia para o outro. Eles costumam ser construídos silenciosamente, por uma combinação de fatores emocionais, sociais, familiares e culturais.
Levar esse tema para um veículo como o Estadão é uma oportunidade importante para ampliar essa conversa. Quanto mais cedo identificarmos os sinais e compreendermos os fatores envolvidos, maiores são as chances de oferecer acolhimento, prevenção e tratamento.
Porque nenhuma criança deveria crescer acreditando que o valor do seu corpo pode ser medido em calorias.





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